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Entrevista Com Uma Psicopata Brasileira: “Como é Viver Com Psicopatia e Superdotação”

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Este artigo propõe uma reflexão sobre a complexa intersecção entre a psicopatia (Transtorno de Personalidade Antissocial) e a superdotação, tomando como base o relato inédito de Carise Mendes, mestre em neuropsicologia e diagnosticada com ambas as condições.

A Dualidade entre a Razão Extrema e o Vazio Emocional

A trajetória de Carise revela que viver com esse diagnóstico é enfrentar um “eterno cabo de guerra”. A superdotação traz uma hipersensibilidade e uma capacidade intelectual elevada, enquanto a psicopatia se manifesta através de uma frieza emocional, ausência de culpa e um tédio crônico que a acompanha desde a infância.

Um dos pontos mais instigantes para reflexão é a distinção que Carise faz entre as formas de empatia. Ela afirma possuir empatia cognitiva — a capacidade racional de compreender o que o outro sente e dar soluções práticas —, mas carecer totalmente de empatia emocional, ou seja, ela não “sente com o outro”. Para ela, o mundo não é dividido entre “bom ou mau”, mas sim entre “útil ou inútil”.

A Ética como Ferramenta de Sobrevivência

Diferente do senso comum que associa o psicopata apenas à criminalidade, o caso de Carise apresenta o conceito de psicopata funcional. Ela utiliza sua alta inteligência e racionalidade para “domar o monstro”, ou seja, para controlar impulsos de raiva e agressividade que poderiam trazer prejuízos à sua própria vida.

A reflexão aqui recai sobre a motivação por trás do comportamento ético:

  • Para o neurotípico: A ética costuma ser guiada pela moral, pela culpa ou pelo afeto.
  • Para o psicopata funcional: A ética é um estudo racional para evitar “lesar o coleguinha” e, consequentemente, evitar problemas legais ou sociais que diminuam seu poder e liberdade.

Relacionamentos e a “Extensão de Si”

A forma como Carise descreve seus vínculos também convida à análise. Ela vê as pessoas, muitas vezes, através do prisma da utilidade ou do entretenimento, admitindo que relacionamentos passados serviam como “experiências de trabalho” que terminavam assim que o tédio surgia.

Entretanto, sua relação com o filho introduz uma nuance particular: ela o descreve como uma “extensão de si mesma”. O cuidado e o afeto que ela dispensa a ele não nascem de um altruísmo convencional, mas de um senso de propriedade e preservação de algo que ela considera valioso e seu.

O Poder da Aceitação e do Mascaramento

O relato destaca o peso do mascaramento (masking) — o esforço exaustivo de fingir ser igual aos outros para se encaixar. Carise relata que o estresse de tentar conviver com pessoas cujas opiniões lhe eram irrelevantes causou danos físicos, como queda de cabelo.

A decisão de “assumir sua verdade” e buscar o diagnóstico foi, para ela, um ato de liberdade e economia de energia. Ela parou de lutar para sentir o que não pode sentir e passou a focar em usar seus traços (como a autoconfiança e a baixa ansiedade) de forma estratégica para alcançar o sucesso.


Analogia para reflexão:
Podemos imaginar a mente de um psicopata funcional como uma sala de cirurgia de última geração: é um ambiente extremamente iluminado, limpo e eficiente, onde cada movimento é calculado e cada ferramenta tem uma utilidade precisa. No entanto, é um lugar onde não há luz solar ou calor natural; toda a iluminação é artificial e fria, projetada não para acolher, mas para garantir que o procedimento (a vida) seja executado sem erros ou interrupções emocionais que possam comprometer o resultado final.

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