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Modelo Chinês: Trabalho, Custo Social e Contradições

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Artigo para Reflexão: O Paradoxo do Modelo Chinês – Crescimento Econômico e os Altos Custos Sociais

O modelo de desenvolvimento da China, um país que se estabelece como o principal contraponto à influência do capitalismo ocidental, apresenta uma série de contradições que merecem profunda reflexão. Recentemente, o Presidente chinês, Xi Jinping, proferiu um discurso em dezembro de 2021 em uma conferência do Partido Comunista Chinês, alertando contra a adoção de políticas de assistencialismo e populismo excessivos. Segundo ele, altos benefícios sociais (assistencialismo) insustentáveis podem levar a sérios problemas econômicos e políticos, fomentando um “grupo de preguiçosos”. Sua fala sugere que países afetados por essas políticas, como o Brasil (implicitamente incluído), sobrecarregaram suas finanças nacionais e caíram na “armadilha da renda média”.

No entanto, essa crítica ao assistencialismo revela uma face oculta do socialismo chinês.

A Cultura de Trabalho Exaustiva e o Estado Contraditório

Enquanto o governo chinês é forte em sua participação na economia, possuindo 391.000 empresas estatais e 32% de toda a riqueza do país, ele é notoriamente fraco na defesa dos direitos trabalhistas, na fiscalização das condições de trabalho e na garantia de benefícios sociais aos cidadãos.

A China possui uma das culturas de trabalho mais exaustivas do mundo, combinada com uma das legislações trabalhistas mais fracas e menores benefícios sociais para seus habitantes. O crescimento de metrópoles como Shenzhen—que se transformou rapidamente de vila de pescadores para o “Vale do Silício da China”—foi guiado por um slogan sombrio: “Tempo é dinheiro, eficiência é vida”.

Essa filosofia se manifesta na prática de trabalho conhecida como “996”. O número se refere a uma rotina de trabalho das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana, um costume que continua em áreas competitivas, especialmente tecnologia, apesar de ter sido reforçado como ilegal sem a devida compensação pela Suprema Corte Chinesa e pelo Ministério do Trabalho em 2021. A pressão por produtividade é impulsionada tanto pelas empresas que buscam competitividade quanto pelo governo, preocupado com o envelhecimento da força de trabalho.

As consequências desse regime são graves. Condições de trabalho precárias se tornaram manchete, com relatos de funcionários em fábricas que produziam para a Apple lutando contra ondas de suicídios, como na Foxconn em Shenzhen, onde redes de proteção foram instaladas após várias mortes em 2010. Funcionários foram expostos a solventes industriais (Hexano) que causam danos neurológicos, e empresas foram flagradas com trabalho infantil e cargas horárias de 75 horas semanais com apenas uma folga por mês.

A Força de Trabalho Barata e o Sistema Hukou

Uma das maiores forças que alimentaram o crescimento econômico chinês foi a disponibilidade do maior número de trabalhadores do mundo (mais de 700 milhões de pessoas), uma força de trabalho relativamente bem educada, mas muito barata. Isso atraiu capital estrangeiro em manufatura e roupas, com grandes multinacionais como Apple, Dell, Microsoft e Nike instalando suas principais fábricas na China.

A diferença nos gastos sociais é gritante: em 2016, a China gastava em média 8% do PIB em programas sociais, enquanto o Brasil gastava 19,3% (mais que o dobro), e a média dos países desenvolvidos era de 21%. Uma das razões para esse gasto social baixo é o sistema Hukou, uma espécie de passaporte interno. O Hukou determina o acesso de um chinês a benefícios como saúde, educação, moradia e previdência com base no local de nascimento.

Após a abertura econômica nos anos 80, o Hukou serviu para manter a força de trabalho barata. Migrantes do campo que se mudavam para as grandes cidades em busca de emprego tinham acesso a benefícios sociais menores do governo da cidade. Essa política reduziu a pressão sobre os sistemas públicos e obrigou esses migrantes a poupar mais, já que emergências teriam que ser pagas do próprio bolso. Suas economias foram então canalizadas pelos bancos para financiar a industrialização, o que enriqueceu as grandes cidades litorâneas, mas abriu um abismo de desenvolvimento entre o interior e as metrópoles.

A Aplicação do Modelo no Brasil: Uma Análise de Viabilidade

Setores da esquerda no Brasil sugeriram a aplicação do modelo chinês diante do fraco desempenho econômico e da desindustrialização nacional. Contudo, o modelo chinês se sustenta em um regime de trabalho rígido e desgastante. Embora o chinês médio seja hoje mais rico que o brasileiro, ele trabalha em média 334 horas a mais por ano.

Adotar o modelo chinês implicaria replicar as condições que atraíram companhias americanas para a China em detrimento do Brasil, incluindo: impostos corporativos pelo menos 10 pontos percentuais mais baixos, leis trabalhistas muito menos rígidas e mais flexíveis, infraestrutura superior, menores índices de corrupção e custos de eletricidade mais baratos.

É curioso esperar que o modelo chinês possa ser conciliado com a cultura de trabalho e os amplos benefícios sociais brasileiros, especialmente em um país onde há manifestações pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6 por 1.

Por fim, o custo social imposto pelo Partido Comunista Chinês foi tão grande que o país hoje tem uma das menores taxas de natalidade do mundo e está a caminho de se tornar um dos mais idosos até 2050.

O sucesso econômico da China é inegável, resultado da conciliação de uma economia de mercado aberta ao comércio com um programa de industrialização forte, mas esse sucesso foi cimentado por uma alta e dolorosa carga de trabalho e um custo social significativo imposto aos seus cidadãos. Refletir sobre a aplicação desse modelo significa, portanto, ponderar sobre a disposição de pagar esse mesmo preço social e humanitário.

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