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Debate: Funk e Música Clássica

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ARTIGO: FUNK É MÚSICA OU ‘FEZES’? O DEBATE ACALORADO NO “TODOS CONTRA UM”

O programa “Todos Contra Um,” do canal Inteligência Ltda, trouxe um debate intenso e polarizado, colocando Lord Vinheteiro – autodeclarado pai da música clássica brasileira e defensor dos bons costumes – contra 20 funkeiros, MCs, produtores e consumidores do gênero. O tema central e provocativo era: “Por que o funk deixa você mais nécio”.

O formato do programa previa que, se 10 ou mais debatedores trocassem a máscara azul pela vermelha, o debatedor principal seria substituído. A parceira de longa data do programa, Kingider, foi agradecida, e o Estratégia Concursos foi citado como patrocinador, sendo líder em aprovações em concursos públicos.

Funk como MPB e o Sonho do Sucesso

Uma das principais linhas de defesa dos funkeiros foi a afirmação de que “a MPB brasileira hoje é o funk”. Eles argumentaram que o funk é o que representa o Brasil, o brasileiro e a comunidade.

O MC Ravel defendeu que o funk e o futebol fazem as crianças sonharem em ser bem-sucedidas. Embora Vinheteiro tenha questionado se a quantidade de crianças que alcançam o sucesso é grande o suficiente para valer o risco, MC Ravel afirmou que são “milhares de pessoas” que ganharam dinheiro e prosperidade.

A estatística de sucesso se tornou um ponto crucial. O MCZL Businessman comparou a carreira de funkeiro à de qualquer outro profissional no Brasil, como um advogado: para chegar ao auge, é preciso dedicação de 5 a 10 anos, e o número de pessoas que atingem o topo é mínimo em todos os ramos, não sendo uma exclusividade do funk ou futebol. Embora fosse estatisticamente mais fácil estudar e conseguir um emprego formal, muitos não se enquadram nessa realidade e preferem ser empreendedores ou viver de sua arte.

Musicalidade e a Questão do Diploma

Lord Vinheteiro levantou a provocação de que não é necessário um diploma para ser funkeiro, o que, em sua visão, resulta em música de má qualidade, pois o diploma serve para selecionar a pessoa que irá executar uma tarefa com precisão. Ele questionou a utilidade social de certas artes, como tocar um piano com prendedor, comparando a criação de funk a “produzir fezes”.

Os funkeiros responderam que, na história da arte, nunca foi obrigatório ter um diploma para ser artista. MC Juanzinho DL e outros MCs afirmaram que, embora não haja um diploma formal, eles buscam conhecimento, sendo a sabedoria e o conhecimento seu “diploma”.

O debate técnico sobre a musicalidade do funk foi acalorado. Vinheteiro alegou que o funk não possui notas musicais, sendo apenas desafinado ou “alguém falando só”. O DJ M e o baterista Renan Macedo rebateram:

  • O funk tem sim notas musicais, acordes e partitura.
  • Embora muitos MCs possam não saber o tom, a música é tocada com instrumentos como teclado, guitarra e bateria. M destacou que o funk, desde o Miami Base de 1980, utiliza ondas eletrônicas e construções rítmicas.
  • Música é uma expressão cultural e artística através de sons, e gêneros como o samba e o maracatu mostram que a essência da música não depende exclusivamente de notas musicais.

Conteúdo, Influência e o Lulu

Vinheteiro frequentemente classificou o funk como “pornografia em forma de som”. A discussão sobre o conteúdo das letras — que abordam ostentação, dinheiro e sexo (“senta senta senta na piroca”) — foi constante.

Os MCs, como Stephanie Sampaio e o MC Latrel, defenderam que o funk é um veículo de expressão para “gritar o que a mídia esconde,” tratando da realidade da comunidade, da pobreza e dos maus-tratos do governo. Um debatedor (MC E) afirmou que comprou sua casa em cima de uma música de funk que fala de moralidade.

A respeito da influência negativa, Vinheteiro expressou receio de que o funk estimule as criancinhas a praticarem safadezas, putaria e crimes. Os funkeiros argumentaram que o problema é a falta de educação no país, e não a música em si. Eles ressaltaram que a música apenas expõe a realidade, mas a escolha de praticar o mal depende da cabeça e da educação de cada indivíduo.

Outro ponto de contenda foi o sucesso na indústria musical. Vinheteiro insinuou que o sucesso é alcançado através de marketing e métodos não musicais, como ter que “emprestar o Lulu” (uma referência eufemística ao orifício anal, que ele descreveu em detalhes) para que a música toque. MC Siena, no entanto, garantiu que alcançou 800.000 ouvintes mensais por puro mérito e talento, nunca tendo “emprestado o Lulu”. Outras formas de monetização mencionadas foram shows, parcerias (como MC Rael com a Nike) e plataformas digitais como Spotify e YouTube.

Impacto Social: Barulho e Preconceito

O impacto social do funk, como a “barulheira” dos bailes funk às 4 horas da manhã, foi criticado por Vinheteiro, que questionou se as pessoas da comunidade gostam do incômodo. Ele argumentou que isso causa prejuízo a quem quer dormir para trabalhar. Em defesa, foi dito que o problema não é o funk, mas a falta de espaços apropriados (como a Virada Cultural) devido à segregação.

A discussão se estendeu à “invasão dos funkeiros” em Alphaville, com Vinheteiro alegando que os ricos estavam se mudando por conta do barulho e das “palhaçadas” dos funkeiros que alugam ou compram imóveis lá. Os MCs refutaram, apontando que os funkeiros que entram em Alphaville também são ricos e que a alegação de “invasão” ou de que a Ferrari retira carros dos funkeiros reflete um profundo preconceito contra o movimento.

Conclusão do Debate

O debate foi intenso, com os participantes defendendo a relevância cultural do funk, sua capacidade de mudar vidas (mencionando o caso do Godinho dos Fluxos, que foi ajudado por um MC), e sua força como movimento que expressa a realidade brasileira.

Apesar de Vinheteiro ter mantido sua tese de que o funk “é fezes” durante a maior parte do programa, ao final do debate, ele surpreendentemente admitiu: “eles me convenceram que o funk não é fezes. Então eu não vou mais falar que o funk é fezes”.

Os participantes consideraram o encontro proveitoso, afirmando que conseguiram quebrar o estereótipo de que o funkeiro é apenas agressivo e mostraram que Vinheteiro é capaz de “compreender outros pontos de vista”.

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