Tal mediação trouxe, como conseqüência, a paulatina substituição do estudo das culturas e línguas clássicas pelo estudo do francês, língua considerada “universal”. No início do século XIX, em que a França atingira seu apogeu de prestígio e de função civilizadora. Foi, portanto, por meio do francês – cujo ensino era obrigatório — que aprendemos a “ver o mundo, que adquirimos o senso da História, que lemos os clássicos de todos os países, inclusive gregos e romanos” (Cândido, 1977:12). O contato com a língua e a cultura francesa também nos permitiu adquirir uma maior humanidade nas questões sociais, uma vez que não apenas a elite dominadora delas se alimentava, mas também as classes dominadas buscavam sua inspiração nos ideais revolucionários franceses. Socialistas e anarquistas liam e se inspiravam na literatura francesa, “trocavam entre eles livros de Balzac e principalmente de Zola, considerado como um grande escritor humanitário; gostavam de evocar os “filósofos” do século XVIII (…), chegavam mesmo a dar aos filhos nomes como Germinal”. (Cândido, 1977:14).
E A GLOBALIZAÇÃO
encarregado da União Latina em Caracas (Venezuela)
O mundo de fala francesa, a francofonia, entendeu muito bem esta mensagem. Falado por 5,5% da humanidade em 47 países distribuídos por cinco continentes, língua oficial de 33 países e de quase todos os organismos internacionais, o francês é uma das grandes línguas de comunicação a nível mundial. Não obstante, em setores como o de grandes empresas, das finanças, pesquisa científica, redes informáticas e o mundo audiovisual, perdeu posições. A percepção do perigo que isto constitui para a existência da francofonia levou-o ao debate e à reação. Daí resultaram leis, instituições, políticas e, sobretudo, a consciência de que a língua é nossa casa no mundo. Desta maneira, a francophonie procura ativamente o ponto de intercâmbio mais adaptado à contemporaneidade: recebe de outros e a outros dá, existindo como um ente distinto.
O hispanismo, como um todo, deve também debater o tema e passar à ação. O estado do debate sobre a língua em nosso país parece limitado a mostrar um escasso vocabulário e a falta de domínio da gramática por parte de muitos falantes, o que sempre ocorreu e ocorre em muitas camadas de população em todos os idiomas e países. O problema fundamental é que nossa língua torna-se cada vez menos apta a dar acesso às áreas-chave de nosso tempo, levando-nos a aprender sistematicamente outra língua que o permita. Se esta tendência se mantiver, o espanhol desaparecerá da vida pública, circunscrevendo-se aos lares, ou terminará desaparecendo… e nós, enquanto povo, também.
Para evitar este fim, devemos pensar numa política pan-hispânica de fortalecimento de nosso idioma no mundo, preservando, por um lado, o direito dos hispanófonos de viver seu idioma dentro de seu país e, por outro lado, fazendo um gigantesco esforço para que a nossa seja uma língua capaz de englobar os fenômenos contemporâneos. Pensemos, então, num tratado pan-hispânico que inclua a obrigação de apresentar, em nossos países, bens e serviços em espanhol, tal como o fez o Quebec. Assim, ao mesmo tempo em que protegeremos um direito indiscutível de nossos falantes e garantimos um uso ótimo dos mencionados bens e serviços, daremos um impulso importante ao nosso idioma como língua internacional de comércio. Pensemos, igualmente, numa insistência constante da União Latina: a necessidade de uma política pan-hispânica de tradução sistemática, que nos permita gerar os neologismos imprescindíveis para apreender a contemporaneidade. O fato de que a cada ano, em inglês sejam gerados de 4 mil a 10 mil neologismos, dá uma idéia da importância do objetivo. A França, a Alemanha e o Japão são países que realizam esforços sistemáticos para reduzir a lacuna terminológica. Não seriam estes pontos verdadeiramente importantes para a Cúpula de Chefes de Estado Ibero-Americanos?
Creio que não encontramos ainda um ponto certo de intercâmbio com o mundo. Às vezes sinto que a falta de percepção de questões básicas faz com que muitos de nós embarquemos em um cruzeiro cuja primeira escala é o spanglish, a segunda Porto Rico, e a terceira tornar-se mais uma estrela, agora falando inglês, da bandeira americana. Outras vezes ouço vozes que, temerosas do mundo, gostariam de fechar-nos num terreno de gastronomia local, ritos crioulos e expressões vernáculas. Penso então no De Gaulle como figura, no Quebec como povo, no mundo de língua francesa, nessa francophonie e vejo nela, juntamente com uma abertura aos outros, num afã de serem diferentes, com fortes brios individualistas, uma vontade de independência salutar, um orgulho tranqüilo pela herança de sua história e, antes de mais nada, de sua língua. Estes gestos são particularmente pertinentes neste fim de século, tendo em vista o rico intercâmbio e a evolução que a globalização proporcionará aos povos que saibam preservar a sua essência; para os que não saibam fazê-lo, será implacavelmente arrasadora.
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