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Color, Messias Político e a Narrativa da Queda

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A Construção e a Queda: Reflexões sobre o Messias Político na Série Caçador de Marajás

O vídeo “Caçador de Marajás: Como se constrói um Messias Político na TV” oferece uma análise crítica da série documental da Global Play, desvendando o método pelo qual Fernando Collor de Mello, um homem praticamente desconhecido em 1989, foi transformado em um salvador nacional para, em menos de dois anos, ser arrancado do poder. A reflexão sobre o conteúdo revela que a ascensão e a queda de Collor foram, acima de tudo, triunfos e tragédias de uma narrativa cuidadosamente construída e midiatizada.

1. O Vazio do Caos e a Busca por um Salvador

Geralmente, figuras messiânicas não emergem em tempos de prosperidade, mas sim no epicentro do caos. Em 1989, o Brasil vivia um desespero coletivo: a inflação atingia 80%, os salários e poupanças derretiam, e a população enfrentava filas intermináveis e prateleiras vazias. Se a economia estava em colapso, a política estava em descrédito total.

A recém-nascida Nova República, saída da ditadura militar em 1985, já parecia “velha, corrupta e incompetente”. Os planos econômicos (Cruzado, Brester, Verão) tornaram-se sinônimo de promessas quebradas. No cenário das primeiras eleições diretas desde 1960, a atmosfera era de “tudo ou nada”. Os políticos tradicionais, como Ulisses Guimarães e Leonel Brizola, eram vistos como figuras cansadas, enquanto Lula assustava as elites. Neste vazio, ninguém personificava a ideia do “novo” com tanta força quanto Collor.

O povo, desesperado, procurava. A série argumenta que a pergunta crucial não é por que Collor venceu, mas sim por que o povo brasileiro precisava ou achava que precisava que alguém como Collor vencesse. Em momentos de crise profunda, o desespero leva à busca por salvadores, e não mais por políticos.

2. A Transformação da Campanha em Cinema de Ação

Fernando Collor de Mello, que teve sua carreira política iniciada com indicação militar e nomeação para prefeito de Maceió após seu casamento com uma família influente, compreendeu que a política é narrativa. Ele foi o pioneiro a transformar a campanha política brasileira em “cinema de ação na TV brasileira em rede nacional”.

A série documental de Charlie Brown desconstrói este método em pilares estratégicos:

  • O Corpo como Mensagem: Collor, aos 40 anos, era jovem e atlético, praticante de caratê faixa preta, contrastando com candidatos mais velhos e com o corpo operário de Lula. Sua imagem—cabelos ao vento, camisa aberta, correndo—era a de um herói dos filmes de ação de Hollywood, simbolizando movimento, vida e futuro, enquanto o Brasil parecia travado e morrendo.
  • A Calibração da Imagem: A campanha não era improvisada. Cada gesto e frase eram testados e calibrados em grupos focais. A equipe descobriu que o brasileiro ansiava por alguém jovem contra os velhos, de fora contra Brasília, que falasse simples e prometesse ação. A estratégia, como revelada por profissionais da campanha, era vender esperança.
  • O Helicóptero como Teatro Divino: A chegada de helicóptero nos comícios não era acidente, mas um elemento visual crucial para comunicar a ideia de Messias, um enviado dos céus para salvar o povo. Ele descia “literalmente das alturas,” correndo em direção à multidão como em um ritual, e não um comício.
  • A Linguagem de Guerra e o Inimigo Perfeito: Collor falava como um “profeta guerreiro,” usando verbos de ação simples e diretos (“vou caçar,” “vou limpar,” “vou varrer”). O Messias não negocia; ele destrói o mal. Seu demônio cuidadosamente escolhido foram os marajás—funcionários públicos de alto escalão com privilégios absurdos. A genialidade da escolha residia no fato de que os marajás eram vagos, invisíveis, e culpados pela crise, permitindo que Collor generalizasse a culpa sobre todo o funcionalismo.

3. A Cúmplice Coletiva e a Performance sobre o Programa

O jornalismo da época abraçou entusiasticamente a narrativa de Collor, pois ela era “simples, visual, [e] dramática,” rendendo manchetes de jornal e capas de revista. Collor se tornou um produto bem embalado que a mídia vendia de graça. A série, ao mostrar imagens da época, sugere que houve uma “ilusão coletiva” e que o público (e a imprensa) foram, em certo sentido, cúmplices de Collor.

A série Caçador de Marajás revela que o eleitorado elegeu uma imagem. Essa é uma das fraturas doloridas expostas pela análise: é mais fácil acreditar em um Messias que resolve tudo magicamente do que aceitar que problemas complexos exigem soluções complexas, lentas e frustrantes.

Uma reflexão levantada pelo vídeo é a escolha narrativa da própria série (produzida em 2025): o documentário dedica muito mais tempo à construção da imagem de Collor e à rivalidade familiar (Fernando vs. Pedro) do que a eventos politicamente traumáticos, como o confisco da poupança pela ministra Zélia Cardoso de Melo. Essa escolha enfatiza que, talvez, o que mais importou não foi o que ele fez, mas o que ele representou. A performance foi mais poderosa do que o programa.

4. A Queda: A Destruição da Narrativa Perfeita

A narrativa que elevou Collor era espetacular, mas inerentemente frágil, dependendo de manter a performance perfeita e a imagem intocada do Messias sem mácula.

A série intercala a ascensão pública com a implosão privada de sua família—o relacionamento turbulento com Rosane, a sombra da mãe Leda e, crucialmente, a rivalidade crescente com o irmão Pedro. A contradição era clara: o homem que prometia salvar o país não conseguia manter sua própria família unida.

A denúncia bombástica de Pedro Collor à revista Veja em 1992 não expôs apenas corrupção, mas sim a destruição da fraude narrativa. O irmão que conhecia os bastidores explodiu a imagem cuidadosamente construída, revelando que o Messias era “humano, demasiadamente humano e corrupto”.

A série, ao estruturar seus episódios em torno da rivalidade entre Fernando e Pedro, transforma um escândalo institucional (envolvendo PC Farias, empresários e políticos) em um “drama shakespeariano” e traição pessoal. Essa abordagem é dramaticamente eficaz e envolvente, mas o vídeo alerta que é historicamente reducionista reduzir uma estrutura de corrupção sistêmica a uma briga de família.

Assim como a subida, a queda de Collor foi amplamente mediatizada e performada. A mesma imprensa que ajudou a construir a figura heroica, ao receber as denúncias de Pedro e ver os “caras pintadas” nas ruas, transformou o herói em vilão. A queda, portanto, não é um acidente, mas sim a falha de uma performance e a vitória de uma nova narrativa.


Conclusão Metafórica: A história de Collor, conforme analisada pela série, demonstra que a construção de um Messias político é semelhante à montagem de um gigantesco castelo de cartas. A estrutura é visualmente impressionante e dramática (o helicóptero, o corpo de herói, a caça ao vilão), mas ela depende da perfeição ininterrupta da performance. Basta que uma única carta seja puxada—como a denúncia do irmão ressentido que expôs os alicerces fraturados—para que a queda seja tão espetacular e mediática quanto a ascensão. O Messias cai por narrativa, mas a responsabilidade de ter acreditado não é apenas dele; ela é coletiva, de um país que preferiu a imagem à complexidade.

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